quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Crônica: O Sumiço do Cascão

Para encerrar as postagens sobre o sumiço do Cascão, confiram a crônica que o Mauricio escreveu sobre esse desaparecimento:

Foi uma primavera de muita chuva em São Paulo, muitos anos atrás.
Talvez já fosse obra do “El Niño”. Mas os satélites, naquele tempo, ainda não rastreavam a temperatura das águas do Pacífico para nos prevenir contra tempestades e enchentes.
E era água caindo, rios transbordando, a cidade afogada…
E eu desenhando tiras de histórias em quadrinhos para o jornal Folha de São Paulo.
Todo dia uma piada, com a alegre turminha – Cebolinha, Cascão, Mônica, Magali – e outros coadjuvantes, vivendo e brincando nas historietas.
Até que me toquei.
O Cascão não poderia estar satisfeito com aquela chuvarada toda. Afinal, com sua tradicional aversão à água, era até estranho que ele não faltasse um dia sequer ao
“trabalho”.
E resolvi que a estação chuvosa merecia um gesto de protesto: o Cascão sumiria das historinhas.
E assim foi.
Durante uns dias a turminha até que se virou muito bem sem ele. Até que em uma determinada tira, depois de mencionarem e estranharem o sumiço do amiguinho, “acharam” um bilhete de despedida. E no bilhete, a razão do desaparecimento: as chuvas torrenciais.
Foi então que me veio a idéia de estender o drama do sumiço, nas próprias tiras, com os demais personagens participando de uma espécie de busca.
Todos tentando descobrir onde o Cascão estaria escondido.
E foi um gostoso exercício de assumir os personagens nas suas fantásticas e criativas buscas.
Até que começaram a chegar cartas de leitores, interagindo com a situação.
Também queriam participar das buscas. E enviavam sugestões sobre lugares e motivos para o Cascão estar aqui ou ali.
Eram cartas às dezenas, que chegavam de todos os cantos do país, merecendo atenção e resposta.
Mas eu ainda não tinha um serviço especializado para administrar o fenômeno crescente.
Passei a publicar, num cantinho da tira, os nomes dos remetentes, com suas cidades.
E com isso as cartas passaram a chegar em maior quantidade.
Desculpei-me “no ar”, ou seja, nas próprias tiras, por não poder responder a todos e prometi que o Cascão estava se preparando para reaparecer.
Afinal, cá entre nós, as chuvas já haviam amainado e eu nem me dera conta, afogado na correspondência.
Mas o reaparecimento do Cascão teria que ser em grande estilo. À altura do movimento que o seu sumiço tinha gerado.
Pensei em montar um show, com os personagens ao vivo (artistas com máscaras da turma da Mônica), em algum ponto de São Paulo, recebendo o Cascão.
Mas onde, como, quando?
Milhares de cartas cobravam essa informação.
Temi uma “enchente” pior do que a das águas, com crianças se acotovelando para chegar perto do personagem e correndo riscos.
Tinha que encontrar um meio de atender ao público e fazer o Cascão voltar em perfeita segurança… para todos.
Planejei a chegada para uma manhã de domingo, no distante Centro Campestre do SESC, adiante de Santo Amaro, bem longe do centro da cidade. Para dificultar, mesmo.
E para evitar uma enchente incontrolável de público, o anúncio do local onde o Cascão reapareceria só foi publicado no mesmo dia do reaparecimento, no suplemento
infantil da Folha.
Artistas devidamente treinados, travestidos de Mônica, Cebolinha, Magali, esperariam num campo de futebol, próximo da entrada do Centro, um helicóptero cedido pela
TV Bandeirantes, de onde o Cascão desceria, alegre, feliz com o reencontro, debaixo de um sol providencial.
E tudo foi acontecendo conforme o planejado.
Menos no tocante ao público.
Mesmo avisados pouco antes, milhares de leitores saudosos do Cascão deram um jeito de aparecer antes das 10 da manhã e “inundar” o Centro Campestre.
Houve necessidade de se improvisar cordões de isolamento, a toque de caixa, para que o helicóptero pudesse descer no campo. E desembarcado o Cascão, num momento até emocionante, outro “drama”. O campo foi tomado pelos fãs e cadê espaço de manobra
para o helicóptero decolar?
O jeito foi os personagens puxarem o povo, numa alegre passeata, para a sede do Centro e assim desimpedirem o campo.
Seguiu-se um show alegre, com a turminha cantando e dançando seus temas musicais. E uma lembrança gostosa para quase 10 mil pessoas que acordaram mais cedo e foram mais espertas para rever o personagem fujão.